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8 º CONGRESSO NACIONAL DO CONPLEI

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Domingo Junho 24 , 2018

CRIANÇAS INDÍGENAS PEDEM SOCORRO

 

Nesta semana, mais uma vez vimos a chocante imagem de uma criança indígena enterrada viva, saindo de debaixo da terra para viver.  Desta vez resgatada, pelas mãos de agentes da segurança pública; não numa aldeia isolada no interior da Amazônia, mas em plena cidade; não sem socorro e assistência médica imediata; não sem denúncia e sem testemunhas oculares; e também, desta vez, não sem o protesto da sociedade.

Desta vez, a sociedade atônita, com dor e aflição na alma, acompanha o desenrolar do resgate dessa criança. Desta vez, o Brasil está vendo uma cena real. Não é um filme, nem uma fantasia; não é coisa inventada para chocar as pessoas; é um FATO.

A imagem do corpinho daquela criança surgindo de debaixo da terra está aí para comprovar que o infanticídio sempre existiu e ainda existe em muitas aldeias indígenas. Ora! Se isso aconteceu bem debaixo do nariz da sociedade, no quintal de uma casa na cidade, o que podemos esperar que esteja acontecendo nas aldeias isoladas da floresta?

Dez anos após a denúncia que o filme HAKANI faz sobre infanticídio, esse vídeo surge para tapar a boca de quem não admite que crianças indígenas são enterradas vivas e sacrificadas de tantas outras maneiras.

Muitas pessoas condenaram, achincalharam, perseguiram a ONG que realizou o filme da menina HAKANI, igualmente desenterrada por seu irmãozinho numa aldeia indígena na Amazônia. Muitos disseram que tudo era uma farsa, que era invenção de religiosos fanáticos, chegando ao cúmulo do MPF mover processos contra os missionários que salvaram a vida da HAKANI. Eles foram acusados de coisas horríveis e até hoje sofrem as consequências disso.

Organizações Não Governamentais e antropólogos se levantaram com fúria para tirar o filme da internet e tentar fazer calar a voz da HAKANI que representa a voz de centenas, milhares de vítimas de infanticídio.

Quando soube da história da Hakani não pude me calar e hoje também não posso me calar, porque eu também sou um sobrevivente do infanticídio. Eu também fui resgatado; mãos abençoadas me arrancaram da terra para viver, crescer e ser uma voz contra o infanticídio, contra a hipocrisia de quem nega, de quem se acomoda e se omite usando argumentos antropológicos que diz que enterrar uma criança é normal porque faz parte de um costume milenar da cultura indígena e que deve ser respeitado. Dizem que não deve haver interferência por parte do não indígena, da sociedade, do Estado, etc., como se a cultura brasileira também não tenha sofrido mudanças com a aprovação de leis para evitar o sofrimento de suas crianças, das mulheres e de tantas outras pessoas, outrora escravizadas pelos costumes de seus ancestrais.

Hoje, mais uma vez, como indígena e cidadão, venho erguer a minha voz representando milhares de indígenas e dezenas de etnias para declarar que nós não aceitamos esse argumento, não concordamos que crianças continuem sendo mortas.

Também muitos indígenas do Parque Indígena do Xingu estão indignados e se sentindo envergonhados com essa imagem que invadiu a Mídia. Eles estão revoltados porque, ao contrário do que argumentam os antropólogos e alguns servidores federais, acham que não é normal ou aceitável enterrar uma criança viva. Por essa razão, muitos têm pedido socorro às Organizações Não Governamentais para salvar suas crianças, visto que não encontram apoio para isso diante daqueles que são responsáveis por socorrê-los nesses momentos de crise.

Nós indígenas não queremos mais isso. Nós hoje entendemos que isso é errado, que não é bom para nós. Não queremos ver outros parentes, que ainda não foram conscientizados enterrando suas crianças. Achamos que todos os indígenas têm o direito de saber e de serem conscientizados de que podemos manter nossa cultura milenar sem matar crianças.

Não queremos que ONGs internacionais e ativistas nacionais e estrangeiros digam que isto é aceitável e que deve continuar assim. Não queremos essa dominação ideológica impondo sofrimento ao nosso povo.

Qualquer que seja o destino desta frágil menininha, sua experiência de vida trouxe e continuará levando uma mensagem à nossa sociedade e ao mundo em favor de tantas outras crianças que ainda nascerão nas aldeias existentes no interior da Amazônia ou em qualquer parte do mundo.

Depois desse acontecimento tão chocante não é mais possível que as autoridades constituídas para administração das causas indígenas omitam ou permaneçam indiferentes como tem feito por décadas. A sociedade exige uma resposta, nós indígenas não queremos ser acusados de criminosos.

Quero enfatizar aqui a necessidade urgente de medidas por parte do Governo através da FUNAI/SESAI  que impeçam a continuação desta prática e que haja ações para prevenir o infanticídio com o acompanhamento dos casos de risco e campanhas de conscientização entre os povos que ainda mantêm essa prática.

Edson Bakairi  -  Líder indígena em Mato Grosso, Mestrando pela UNB

Membro da diretoria do CONPLEI – Conselho Nacional de Líderes Evangélicos Indigenas

 

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