Domingo Junho 25 , 2017

100 anos de Evangelho entre os indígenas

100 ANOS DE EVANGELHO ENTRE OS INDÍGENAS  DO BRASIL

 

Por Ricardo Poquiviqui Terena

 

“Em busca do tesouro perdido”

No final do  século passado, um cidadão do Reino Unido (Escócia) chamado John Hay  e um amigo, resolveram juntar seus pertences e partirem para a América do Sul: lugar que eles tinham ouvido dizer ser o procurado “Eldorado”; terra na qual os homens buscavam para si grandes fortunas, porque as oportunidades para enriquecer eram muitas ( ouro, estanho, prata, terras,  etc.).

Assim numa manhã chuvosa, eles embarcaram em um navio no cais de Liverpol (Inglaterra) em busca do tão sonhado Eldorado. Depois de muitos dias navegando, ora em mar revolto ora em bonança, o navio aportou no cais de Buenos Aires (Argentina).

John Hay e seu companheiro ficaram por algum tempo na cidade de Buenos Aires; mas não era ali que eles esperavam ficar ricos. Buenos Aires tinha a aparência das cidades europeias, lugar de onde eles vieram e eles achavam que ali não haveria grandes oportunidades para se ganhar dinheiro. Assim, sendo, os dois amigos partiram para outras cidades da América do Sul em busca de riquezas.

Viajaram por muitos lugares e foram alcançando aquilo que buscavam, ou seja, começaram a ficar ricos. Em determinado momento, cada um tomou seu próprio caminho em busca de mais riquezas.

John Hay agora estava só, ele e seu dinheiro, pensando ter alcançado o seu objetivo de vida. Um dia porém as coisas mudaram – John Hay perdeu toda a sua fortuna que tinha ajuntado nos cassinos do Paraguai.

E assim sem dinheiro e sem amigos, num país distante e longe dos familiares, o homem que queria ganhar os “tesouros do mundo”, ouve as Boas Novas de Salvação e recebe Deus por meio de Jesus, o Tesouro Maior do mundo, que ele não viera buscar na América do Sul mas que acabou ganhado pelo amor de Deus.

“Achando o Verdadeiro tesouro perdido”

Convertido ao Senhor Jesus, John Hay volta para a sua terra natal, alguns anos se passam. Novamente desembarca de um navio na América  do Sul (Santos), já não com um companheiro para ganharem tesouros  do mundo, mas com uma companheira, a sua fiel esposa (também crente) com quem se casara em seu país, para anunciarem aos pecadores o caminho do verdadeiro Tesouro da Salvação Eterna – Cristo Jesus.

E assim, no ano de 1902, este homem transformado, começava no Paraguai, lugar onde ele perdeu toda a fortuna, anunciar a salvação em Cristo Jesus com a Missão Evangélica e Médica do Paraguai.  A eles se agregaram outros missionários para trabalharem no meio de índios hostis, lugarejos pobres, vilas e cidades isolada, falando do amor de Cristo e dando assistência médica e social.  Mais tarde, com o crescimento da obra e atingindo outros países, a missão passa a chamar-se União Missionária da América do sul.

O objetivo da missão foi a de concentrar esforços para longe dos grandes centros urbanos e penetrar em áreas remotas onde nenhuma outra obra evangelística  tinha sido feito para pregar e estabelecer auto sustentável, as igrejas de auto propagação entre os nativos das tribos indígenas.

Visão esta, que anos posteriores as igrejas indígenas tomariam, ou seja, seriam elas mesmas as sustentadoras e propagadoras do evangelho, inaugurando um novo conceito missiológico, “índio evangelizando outro índio”.

“Escute o clamor do homem vermelho, América do Sul está chamando”.

Tomado de grande amor pelas almas perdidas, o homem que tanto procurou tesouros perdidos, agora grita: América do Sul esta chamando, o coração gigante, ultimo grande continente necessita da palavra da vida! Estão em escuridão: Paraguai, Brasil, Peru, Venezuela, suas estão agonizando e o salvador manda nos apressar os nossos para ir ao encontro desses povos. Escuta o clamor do homem vermelho que suspira entre as árvores de palmas altas.

Ituké Ituko óvoti xapakuke kopenoto – A palavra de Deus entre os indígenas.

“1912 A primeira visita aos índios Terena do Brasil “.

No ano de 1912, Sr. John Hay, então diretor da ISAMU, e o senhor Henrique Whittington, fizeram a primeira viagem que durou dois meses de cavalo desde Concepção no Paraguai até o interior do Brasil , no município de Aquidauana. Foi o primeiro contato com os índios Terena, visitando várias aldeias a fim de colher informações e a possibilidade de instalar uma casa missionária e escola na aldeia.

O lugar escolhido foi Bananal e Ipegue, onde concentrava o maior numero de indígenas da região. A viagem foi realizada a cavalo, pois na época a estrada de ferro ainda não estava construída.

Os primeiros missionários foram bem recebidos, os Terena já tinham contato com os brancos e tinham sido reconhecidos pelo governo federal por terem ajudado o Brasil na grande guerra contra o Paraguai. Isso facilitou a comunicação com os missionários, alguns indígenas já sabiam ler e escrever.

Explicaram para o povo a finalidade da visita e os Terena junto com o capitão Manuel Pedro ficaram bastante ansiosos para que eles pudessem morar na aldeia, prometeram construir um lugar para que pudesse servir de escola e também se propuseram a auxiliar na construção de casas para moradia dos missionários.

Quando os missionários viram que os indígenas do Ipegue e de Bananal, junto com o capitão Miguel Pedro e demais lideranças, estavam de comum acordo, perceberam então que Deus abrira uma grande porta de entrada num campo, até então, fora do alcance da mensagem do evangelho da graça redentora.

Depois desta feliz visita e com muitas esperanças e planos para os Terena, voltaram por rio, primeiro num batalhão, no rio Miranda, até porto Esperança, onde embarcaram num navio para Concepção, e de lá até Assunção, a capital do Paraguai, a fim de providenciar as coisas necessárias para os novos planos. Mudaram a sede para Vila Rica, de onde esperam alcançar índios  e continuar trabalhando entre os paraguaios descrentes, enquanto esperavam um novo casal que os havia de ajudar no novo trabalho.

“1913 Os missionários voltam decididos a morar com os índios Terena”

Em 16 de maio de 1913, o senhor Henrique Whittington e sua esposa juntamente com sua filhinha de apenas três meses e os novos missionários com seu filhinho, embarcaram para Assunção.

A estrada de ferro já existia de Porto Esperança até Aquidauana, mas devido a enchente, não podiam desembarcar no Porto Esperança, e foram obrigados a continuar até Corumbá, de onde, por uma lancha foram rebocados até uma chata, seguindo até Miranda. Chegando a Taunay dia 30 de maio, já no escurecer , onde passaram a noite juntos com um agente e um turco.

O capitão e alguns dos seus homens vieram prontamente arranjar a entrada dos missionários no meio deles. Porém, quando eles ouviram que não haviam recebido permissão por escrito, da Sociedade de Proteção ao Índio ( SPI ), não permitiram a entrada, mas não porque os índios não quiseram, porque as autoridades não tinham dada a autorização.

A situação ficou difícil para os missionários, já que estavam com crianças e sem uma casa ou mesmo uma barraca para poder se abrigar.

Ao mesmo tempo era muito perigoso, pois tinham muitos bandidos e ladrões que buscavam refugio ou se escondiam no povoado de Taunay que fica perto das aldeias indígenas.

Deus guardava e protegia-os, pois através da ousadia e perseverança desses bravos homens e suas famílias, nasceria ali uma igreja forte, a fim de proclamar libertação as nações indígenas do Brasil e nos dias de hoje, esse movimento não para de crescer.

Enquanto o senhor Henrique, passava noites e dias longe de sua família buscando negociar com os oficiais em Aquidauana e Rio de Janeiro a permanência dentro das comunidades indígenas, os demais missionários fizeram um acampamento improvisado de cobertores e lençóis a beira da aldeia.

A razão principal deles não serem recebidos pelos índios era que já havia uma promessa por parte do governo de mandar professores para a aldeia, e que estava descartando a possibilidade deles atuarem, as forças malignas estavam se levantando cada vez mais contra o processo de evangelização, ao mesmo tempo, Deus estava movendo os céus para que os missionários pudessem entrar na aldeia, e nada iria impedir o mover de Deus para que os indígenas pudessem conhecer a verdade.

A resposta veio em seguida, eles já tinham autorização para entrar nas terras indígenas e darem prosseguimento ao projeto de educação e evangelização do povo.

“As primeiras aulas com os índios Terena”

Até, hoje, esse mesmo sistema é usado na evangelização, os missionários precisam entrar nos campos como enfermeiros, professores, médicos, etc. E evangelizando, muitos precisam viver no meio da selva, longe do conforto de suas casas sendo obedientes ao chamado que receberam do Salvador Jesus, que sempre suprirá todas as necessidades dos que estão no centro da sua vontade.

Dias depois os missionários foram morar em uma casa melhor, o Senhor Jorge Pio, que morava na rua principal, mui bondosamente cedeu sua casa , onde posteriormente foi iniciada a primeira escola missionária entre o povo Terena, com aulas na parte da noite para os adultos, sendo bem frequentada.

Então, com muito esforço e perseverança, passando por várias lutas e dificuldades, começaram-se os cultos evangélicos. O povo que no início já era amigável, agora estava mais interessada e com muito mais confiança no trabalho que os missionários desenvolviam.

No princípio, havia uma frequência muito resumida, mas pouco a pouco os números aumentaram. Ainda a batalha não era vencida, porém o Senhor começou a abençoar a semente que havia sido lançada, e depois de algum tempo, alguns não só ficaram interessados na salvação das suas almas, mas havendo aceitado Jesus Cristo como seu salvador, tomaram uma nova atitude na sua vida. Os que bebiam, começaram a deixar de beber, também tratavam melhor suas esposas e seus filhos, trabalhavam com vontade, e até suas roças começavam a produzir melhor. Até o dia de hoje os Terena vendem seus legumes e verduras nas cidades perto de suas aldeias.

Cada vez que eles mediam e faziam planos  de construir as suas primeiras casas, sempre a licença era cancelada. Isso era desmotivador e trazia muita tristeza para todos. O Senhor Henrique perdeu as esperanças e foi pessoalmente a Cupaté a fim de ver a possibilidade do dono da fazenda vender um terreno suficiente para construir suas  casas.

Não vendeu, porém deu, gratuitamente, a terra em que as casas da Missão foram construídas. Mais tarde, concedeu um terreno em Taunay a fim de construir uma igreja, junto com a escritura dos dois lotes. Ele foi obrigado a regressar a sua cidade natal antes que pudesse fazer mais em Taunay além de marcar o terreno.

Depois de receber a terra da Esperança, encerram as aulas a fim de construírem as casas. Os cultos, porém, não foram interrompidos e a classe da Bíblia e a classe de canto não cessaram. Já estávamos realizando cultos em Ipegue e foram bem frequentados.

Fato é que apesar de não ter conversões, o interesse era tão grande que o povo de Ipegue considerou a possibilidade de construir uma igreja para os cultos que realizamos todos os domingos a tarde. O trabalho de Bananal progredia continuamente, e diversos indígenas manifestaram sua fé em Cristo Jesus.

Resolveram realizar o primeiro batismo. Os que consideravam prontos estavam sendo instruídos quanto ao sentido verdadeiro do batismo. De uns oito que desejavam se batizar foi escolhido apenas quatro, e logo marcaram a data para realizar este sacramento.

Um pouco antes disso o professor do governo chegou. Seu objetivo principal parecia ser caluniar os missionários e seus ensinos, é claro que o inimigo não podia ver o povo se convertendo, esse professor disse aos índios que não seriam permitidos pregar o evangelho em qualquer vila ou cidade brasileira, pois o ensino era destinado para os ignorantes e depravados, tais como índios mais atrasados. Porém, o fogo que Deus acendeu continuou a queimar. Vendedores de pinga continuaram a fechar seus bares quando foram transformados em suas vidas.

Então apareceu um padre romano a convite, como se dizia, do professor , com a finalidade de dizer aos índios que ele havia sido mandado pelo governo. O padre rezava a missa e batizava muitas crianças, distribuía medalhas aos seus adeptos.

“1915, Batismo dos primeiros crentes indígenas”

Cada vez que os missionários realizavam um culto, ele também fazia o mesmo em oposição. A frequência dos cultos diminuiu um pouco, porém os crentes permaneceram firmes.

A vitória veio com um sabor especial, foram batizados publicamente os quatro na presença de um grande número de espectadores, tanto incrédulos, como interessados, Jorgina Lili foi a primeira, depois a esposa de Henrique Pereira, Honório Massi e finalmente Henrique. Todos esses deram testemunho vivo antes de serem batizados.

Então, domingo, dia 31 de dezembro de 1915, foi constituída a primeira igreja indígena evangélica em todo o Brasil. Depois disso foi celebrado com muita festa o sacramento da primeira ceia do Senhor  entre o povo Terena.

É um dia a ser lembrado, não somente na terra, mas estamos persuadidos, que está escrito no céu a fim de ser festejado durante toda a eternidade, não somente pelos Terena, mas por todos, pois essa vitória é pra honra e glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.

“Depois disso olhei e vi uma multidão tão grande, que ninguém podia contar. Eram de todas as nações, tribos, raças e línguas. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro” Apocalipse 7:9

Hoje, quanto tesouro perdido nas matas e florestas, tesouros estes que o próprio Deus deu a sua vida, e agora depositou em nossas mãos a tarefa de buscar o que se havia perdido. Como é maravilhoso saber que o esforço de dois homens e suas famílias, salvou muitos índios Terena e agora com 100 anos, os próprios índios Terena saem de suas aldeias para alcançar outros patrícios.

“Motovani pahúkea Anju, xapakuké kopénoti, Motovani Pahúkea Anju, uti kuvovo ne Vunãe” ( Podia até mandar um anjo para as tribos avisar, mas escolheu você e a mim).

 

Referência Bibliográfica:

 

-       PENETRATING SOUTH AMERICA’S DARKEST PART, Alex, Tattray Hay Illustrations by INLAND-SOUTH-AMERICA MISSIONARY UNION

-       Saints and Savages; Brazil’s Indian Problem, Alex Rattray Hay

INLAND-SOUTH-AMERICA MISSIOANRY UNION